Existe uma conversa que se repete em escritórios de empresas de médio porte no Brasil inteiro: o dono olha para o balanço que o contador entregou, não entende nada de útil, e toma as decisões do mês com base no saldo da conta corrente. Isso não é falta de capacidade financeira. É falta do instrumento certo.
O DRE gerencial é esse instrumento. E o motivo pelo qual a maioria dos empresários não o tem é simples: o contador não monta esse relatório — não porque não queira, mas porque não é obrigado a, e porque montá-lo exige informações que muitas vezes só existem dentro da operação, não dentro da contabilidade.
O que é o DRE Gerencial e por que ele Existe
O DRE contábil — a Demonstração do Resultado do Exercício que seu contador entrega — segue as normas do CFC e da legislação tributária brasileira. Ele existe para satisfazer o Fisco, os sócios em termos legais e, eventualmente, instituições financeiras. O problema: foi desenhado para fins de conformidade, não de gestão.
O DRE gerencial é uma reconstrução da demonstração de resultado com foco na tomada de decisão. Suas principais características: segregação de receita por produto, linha, canal ou cliente; separação clara entre custos variáveis e custos fixos; cálculo de margem de contribuição por segmento; exclusão ou ajuste de itens não-caixa que distorcem o resultado.
A Diferença entre DRE Contábil e DRE Gerencial na Prática
Imagine uma empresa de TI que atua em dois segmentos: projetos por demanda (70% da receita) e contratos de suporte recorrente (30% da receita). Ambos constam na mesma linha de receita no DRE contábil — tornando impossível saber qual segmento sustenta o resultado.
DRE Gerencial — mesma empresa, outra perspectiva
| Projetos | Recorrente | Total | |
|---|---|---|---|
| Receita Líquida | R$ 2.411.000 | R$ 1.033.000 | R$ 3.444.000 |
| Custos Variáveis | (R$ 1.687.000) | (R$ 309.900) | (R$ 1.996.900) |
| Margem de Contribuição | R$ 724.000 (30%) | R$ 723.100 (70%) | R$ 1.447.100 |
| Custos Fixos alocados | (R$ 580.000) | (R$ 467.100) | (R$ 1.047.100) |
| Resultado por Segmento | R$ 144.000 | R$ 256.000 | R$ 400.000 |
Agora a conversa muda de patamar. O segmento recorrente tem margem de contribuição de 70% — quase o dobro dos projetos. A decisão estratégica de priorizar a expansão dos contratos recorrentes está agora sustentada por dados.
Como Montar o DRE Gerencial da sua Empresa
Passo 1 — Definir os Segmentos de Análise
O primeiro passo é decidir como você quer enxergar o negócio. As opções mais comuns são: por linha de produto ou serviço (ideal para portfólio diversificado); por canal de venda (útil para venda direta, indireto e digital simultâneos); por cliente ou segmento (poderoso para empresas B2B concentradas em grandes contas); por unidade de negócio ou filial (essencial para grupos com múltiplas operações).
Passo 2 — Mapear os Custos Variáveis e Fixos
Este é o passo mais trabalhoso e o mais importante. Custos variáveis são diretamente associados à entrega — variam proporcionalmente com o volume de vendas (comissão de vendedores, custo de materiais, freelancers, frete). Custos fixos existem independentemente do volume (aluguel, folha da administração, software de gestão). Muitas empresas descobrem nesse exercício que classificam como 'fixo' custos que na verdade são variáveis mal controlados.
Passo 3 — Calcular a Margem de Contribuição por Segmento
A margem de contribuição é o resultado após subtrair os custos variáveis da receita líquida: MC = Receita Líquida − Custos Variáveis. Esse número responde à pergunta: cada produto ou serviço que vendemos está contribuindo para cobrir os custos fixos da empresa? Se a margem de contribuição de um segmento é negativa, a empresa perde dinheiro em cada venda nesse segmento — independentemente do volume.
Passo 4 — Alocar os Custos Fixos
Com as margens de contribuição calculadas, aloque os custos fixos entre os segmentos por alocação direta (custos claramente vinculados a um segmento) ou rateio por critério (distribuição por % da receita, número de horas ou número de clientes).
Passo 5 — Revisão Mensal e Comparativo com Meta
O DRE gerencial só gera valor se for revisado com regularidade. Ciclo recomendado: fechamento mensal até o 10º dia útil do mês seguinte; reunião de análise de 1 hora com a liderança, focada em variações vs. mês anterior e vs. orçamento; revisão trimestral do modelo para refletir mudanças na operação.
O que o DRE Gerencial Revela que o Contábil Esconde
- Clientes ou produtos que destroem valor — é comum descobrir que 20% dos clientes respondem por 80% da margem, e que alguns clientes grandes geram prejuízo depois de computados os custos reais de atendimento.
- O ponto de equilíbrio real — com custos fixos e margens de contribuição corretos, você calcula com precisão quanto precisa vender para cobrir todos os custos.
- O impacto real de uma contratação — antes de contratar, o gestor pode simular no DRE gerencial o impacto do novo custo fixo na margem.
- A viabilidade de um novo produto — um produto com preço de R$ 500 e custo variável de R$ 420 tem margem de contribuição de 16% — e pode não cobrir sua parcela dos custos fixos.
A PECS apoia empresas na estruturação de controladoria gerencial, construção de DRE gerencial e implantação de rotinas de análise financeira. Entre em contato para um diagnóstico.
Solicite um Diagnóstico GratuitoPerguntas Frequentes sobre DRE Gerencial
O DRE contábil segue as normas fiscais brasileiras e serve principalmente para fins legais e tributários. O DRE gerencial é construído para a tomada de decisão interna — reorganiza receitas e custos de acordo com a lógica do negócio, separa margens por segmento e elimina distorções contábeis que não refletem a realidade econômica da operação.
O contador pode colaborar com dados contábeis, mas o DRE gerencial exige informações operacionais que geralmente só existem dentro da empresa — como a segregação de receitas por produto, a classificação correta de custos variáveis e fixos, e os critérios de rateio. Na prática, o DRE gerencial é montado pelo controller interno ou pela consultoria de gestão.
O ciclo recomendado é mensal, com fechamento até o 10º dia útil do mês seguinte. Empresas maiores ou com operações mais dinâmicas podem adotar revisão quinzenal. O importante é manter a regularidade — um DRE gerencial útil é aquele que é comparado ao mês anterior e ao orçamento a cada ciclo.
Se você não consegue responder com precisão às seguintes perguntas, sua empresa precisa de um DRE gerencial: Qual produto ou serviço tem maior margem? Qual cliente é mais lucrativo? Quanto preciso vender para cobrir todos os custos fixos?